Thursday, June 19, 2008

Pescoção!

Estou em Tokyo. Cheguei aqui no dia 13, e passeei bastante. Vi um pouco da cidade, comi bastante sushi, vi o tal prato do peixe que se mexe ainda, agonizando enquanto a pessoa vai comendo os bifinhos (sashimi) que saíram do corpo dele minutos atrás. Na segunda-feira fomos para Nikko passar uma noite em um hotel tradicional japonês, onde tem aquelas termas pra tomar banho e tal.

Aqui no Japão, apesar do advento do chuveiro, tradicionalmente as pessoas tomam banho sentadas em um banquinho de madeira e usam canecas e baldes para jogar água no corpo. Eu não faria isso todos os dias, mas foi uma experiência interessante.

Voltamos pra casa na segunda. Confesso que eu realmente estava com as pilhas carregadas para recomeçar minha rotina louca de trabalho.

Acordei lá pelas 5 da manhã de quarta-feira com muitas dores no pescoço. Mal podia me mexer na cama, minha vontade era gritar, bem alto. Não fiz isso, mas meu barulho foi suficiente para acordar o Herman, que ficou preocupado. Depois de uns minutos, consegui encontrar uma posição na cama que fosse menos desconfortável, e adormeci novamente.

Lá pelas 8 da manhã, acordei, e a dor era insuportável. Eu literalmente chorava de dor, e de desespero. Estar em Tokyo, na cidade onde ninguém fala inglês, com um problema estranho, num sistema médico estranho, me apavorou.

Conseguimos entrar em contato com o pessoal do seguro de viagens do Google, e eles foram lerdos demais para minha dor, porém eficientes. Lá pelas 10:30, fomos a uma clínina de ortopedia, onde checaram o que havia de errado no meu pescoço. Fiz um tratamento maluco com choques elétricos para relaxar minha musculatura, tomei injeção de analgésico, e mais um montão de remédios para dor e anti-inflamatórios para tomar depois do café-da-manhã, almoço e janta. Parece que tive uma distenção muscular no pescoço. Que lugarzinho não?

Passei o resto do dia, meio zonza ainda por causa da dor, no escritório do Google. A noite, dormi um pouco melhor, e pela manhã voltei para o médico. Minha cabeça pesava muito em cima dos meus ombros, e em cima do maldito pescoço dolorido também.

O meu tratamento dura 7 dias, durante os quais viajar é extremamente desaconselhável. Além disso, hoje pela manhã ganhei uma daquelas coleiras para usar em volta do pescoço, e mais choques elétricos. Minha mudança vai ser adiada, assim como minha viagem de volta pra casa, que deveria acontecer amanhã.

Tive que cancelar minha viagem para Angola, o que lamento muito. Mas saindo de Tokyo no dia 26 depois de uma lesão no pescoço, ía ser impossível chegar em Luanda no dia 28 para o evento. Talvez eu chegasse, mas talvez meu pescoço pulasse do avião antes disso, e me abandonasse para sempre.

Friday, June 6, 2008

Deu pra ti, baixo astral

Desde que voltei do Brasil, estou sublocando um apartamento em Zurich de um inglês que está temporariamente fora da Suíça. O apartamento é super legal, grande, iluminado, bem dividido, porém, tem o vizinho de baixo.

O vizinho de baixo parece ser uma pessoa problemática, que tem uma relação curiosa com o cabo da vassoura (ao que parece). Se eu faço o menor barulho, como tomar banho, deixar algo cair no chão, depois das 22 horas, o cara simplesmente começa a cutucar a tal da vassoura no teto, que é o meu piso. Isso aconteceu incontáveis vezes até agora, e começou a me dar uma sensação de desconforto com o local.

O momento mais ridículo foi quando eu fui testar meu projetor pela primeira vez. Liguei o projetor, coloquei o filme pra rodar com o som das caixinhas do computador (já que meu amplificador e caixas de som ainda não tinham chegado). No final do filme, eis que a campainha toca. Naquele momento o TUM TUM do meu piso se personificou. Era o tal do vizinho louco. Ele olhou pra mim, não deu nem oi, gritou por uns 15 segundos em alemão (que eu não entendi bulhufas, aliás), e virou as costas. Eu fiquei ali, pasma na frente da porta, sem saber se eu ria ou chorava.

Bom, na semana seguinte, os 20W das minhas caixinhas do computador voltaram pro computador, e agora eu tenho 130W x 7 + 250W de som na minha sala. Só que não tenho coragem de ligar o bendito som!

Depois de algumas semanas pensando, pensando, analizando, etc, resolvi que queria me mudar daqui. Simplesmente não posso viver assim. Comecei a olhar por apartamentos, e finalmente, encontrei um que eu gostei, lindo, em uma cidadezinha há 20Km de Zurich, chamada Richterswil. A cidade parece coisa de cinema, lindinha, limpinha, cheia de casarões velhos. Tentei encontrar fotos da cidade, porém não consigo achar, o que me leva a crer que eu devo montar um website de informações sobre a cidade, com fotos e tal, porque é linda demais.

O apartamento é térreo, em um prédio novo, cheio de isolamento térmico e acústico. Será que eu deveria descer no meu vizinho antes de sair daqui e gritar na cara dele em português?

Wednesday, June 4, 2008

Herdando conflitos dos outros, ou a saga do "código aberto"

Já faz um tempo que estou para escrever sobre isso, e hoje como estou me sentindo talvez inpirada, vou tentar escrever um pouco sobre o porque usar o termo "código aberto" para falar de Software Livre é um erro, na minha opinião.

Um pouco de história

Sob a alegação de que o termo "Free Software" seja ambíguo em inglês, em 1998, a Open Source Initiative (aka OSI), iniciou seus trabalhos como uma campanha de marketing para o "Free Software" (Software Livre), alegando que, além de o termo original ser ambíguo em inglês, também existia o problema de que nem todas as pessoas estariam preocupadas com a filosofia, e defender o Software Livre somente embasado em causas políticas, sociais e filosóficas não criava apelo nas empresas. Então, eles começaram a fazer propaganda de Software Livre, chamando de "Open Source", e dizendo que era melhor tecnicamente.

Para isso, criaram uma definição para o termo "Open Source", que nada mais é que um sed na Debian Free Software Guidelines, trocando "Free Software" por "Open Source". E para quem não sabe, o documento Debian Free Software Guidelines foi escrito no comecinho do projeto Debian, quando ele ainda era um projeto intimamente ligado à Free Software Foundation (a FSF inclusive fez doações para que o Projeto Debian pudesse começar).

A pergunta que não quer calar: Isso faz "Open Source" e Software Livre serem duas coisas distintas?

Obviamente, não faz. Fazendo uma analogia, seria como comparar dois vegetarianos, um que não come carne porque não pode por motivos de saúde, e o outro porque é contra matança de animais. Isso faz com que eles sejam menos vegetarianos? Não. Então defender causas técnicas para o uso do Software Livre faz com que ele seja menos livre? Não. Na verdade, como todo bom vendedor, é necessário falar sobre as vantagens do produto de acordo com o consumidor. Se você tá vendendo um carro verde com bolinhas roxas para uma pessoa que gosta de verde, você põe ênfase no verde, se a pessoa gosta mais de roxo, você põe ênfase nas bolinhas roxas. Claro que como bom vendedor você pode e deve tentar educar essa pessoa sobre a importância da outra cor, o quanto a outra cor também é maravilhosa, e por isso o seu produto é ainda melhor do que pessoa esperava. No caso do Software Livre, seria o equivalente a ensinar um pouco mais sobre a parte técnica para os não técnicos que acham a causa social interessante, e falar da causa social para os que acham a parte técnica interessante. E criar um ambiente onde todo mundo conviva feliz. Educar é a palavra-chave na comunidade Software Livre.

Existem controvérsias sobre as possíveis interpretações da "Open Source Definition", que basicamente faz com que 1 ou 2 licenças existentes no universo caiam na excessão: é uma licença de "Open Source" porém não é uma licença de Software Livre. Essa 1 ou 2 licenças conhecidas possuem uma insignificante quantidade de softwares licenciados sob elas, então eu também acho insignificante ficar dando ênfase para as diferenças entre Software Livre e "Open Source". Algumas pessoas até hoje batem o pé e choram dizendo que não é a mesma coisa, que Software Livre é uma coisa, "Open Source" é outra. Eu acho uma perda de tempo e de esforço, já que isso só serve para dividir a comunidade. Dividir para conquistar, alguém já ouviu isso antes?

Essas pessoas que fomentam esse conflito, estejam elas do lado do Software Livre ou do lado do "Open Source", nada mais fazem do que alimentar uma guerra de ego sem fim. E este conflito é muito presente principalmente nos Estados Unidos, pelo que eu pude notar nas minhas inúmeras vezes pela terra do Tio Sam.

Tá, mas e o "código aberto?"

Bom, eu não sei exatamente quando, comecei a perceber que a comunidade brasileira está entrando na onda do "bater o pé que é diferente" ou "somos dois movimentos distintos", e algumas pessoas começaram a escrever coisas absurdas do tipo "Software Livre e de código aberto". Eu acho que isso é um grande erro da comunidade brasileira, e alguns dos motivos que me levam a acreditar nisso são:

  • Não existe ambiguidade no termo Software Livre em português.

  • Possuir o código aberto é um pré-requisito para que o Software seja Livre, mas possuir o código aberto (em bom português) não significa que o Software seja de fato Livre.

  • Código aberto é um termo sem definição. Não existe nenhum lugar que tenha publicado o que é que código aberto significa, e usar um termo sem definição somente contribui para que as pessoas que queiram deturpá-lo tenham a oportunidade de fazê-lo.

  • Somos todos "vegetarianos", não importa o motivo, e manter a comunidade unida é uma das chaves para o sucesso do nosso movimento.

  • Membros do conselho da OSI, durante visita ao Brasil há alguns anos, sugeriram que não seja criado "yet another term" para falar de Software Livre, por isso, se nem o povo que criou o termo "Open Source" quer que a gente traduza ele, porque a gente vai fazer isso por conta própria?

  • Evitar o efeito "dividir para conquistar".

  • Depois da merda espalhada, a própria comunidade vai ter que pagar o preço para limpar, e consertar um erro depois de consolidado é muito mais difícil do que evitar cometer o erro desde o começo.


  • E viva ao Software Livre! Que você pode achar socialmente justo, tecnologicamente sustentável, politicamente correto, super geek ou seja lá o que for. Somos todos "vegetarianos".