Wednesday, June 4, 2008

Herdando conflitos dos outros, ou a saga do "código aberto"

Já faz um tempo que estou para escrever sobre isso, e hoje como estou me sentindo talvez inpirada, vou tentar escrever um pouco sobre o porque usar o termo "código aberto" para falar de Software Livre é um erro, na minha opinião.

Um pouco de história

Sob a alegação de que o termo "Free Software" seja ambíguo em inglês, em 1998, a Open Source Initiative (aka OSI), iniciou seus trabalhos como uma campanha de marketing para o "Free Software" (Software Livre), alegando que, além de o termo original ser ambíguo em inglês, também existia o problema de que nem todas as pessoas estariam preocupadas com a filosofia, e defender o Software Livre somente embasado em causas políticas, sociais e filosóficas não criava apelo nas empresas. Então, eles começaram a fazer propaganda de Software Livre, chamando de "Open Source", e dizendo que era melhor tecnicamente.

Para isso, criaram uma definição para o termo "Open Source", que nada mais é que um sed na Debian Free Software Guidelines, trocando "Free Software" por "Open Source". E para quem não sabe, o documento Debian Free Software Guidelines foi escrito no comecinho do projeto Debian, quando ele ainda era um projeto intimamente ligado à Free Software Foundation (a FSF inclusive fez doações para que o Projeto Debian pudesse começar).

A pergunta que não quer calar: Isso faz "Open Source" e Software Livre serem duas coisas distintas?

Obviamente, não faz. Fazendo uma analogia, seria como comparar dois vegetarianos, um que não come carne porque não pode por motivos de saúde, e o outro porque é contra matança de animais. Isso faz com que eles sejam menos vegetarianos? Não. Então defender causas técnicas para o uso do Software Livre faz com que ele seja menos livre? Não. Na verdade, como todo bom vendedor, é necessário falar sobre as vantagens do produto de acordo com o consumidor. Se você tá vendendo um carro verde com bolinhas roxas para uma pessoa que gosta de verde, você põe ênfase no verde, se a pessoa gosta mais de roxo, você põe ênfase nas bolinhas roxas. Claro que como bom vendedor você pode e deve tentar educar essa pessoa sobre a importância da outra cor, o quanto a outra cor também é maravilhosa, e por isso o seu produto é ainda melhor do que pessoa esperava. No caso do Software Livre, seria o equivalente a ensinar um pouco mais sobre a parte técnica para os não técnicos que acham a causa social interessante, e falar da causa social para os que acham a parte técnica interessante. E criar um ambiente onde todo mundo conviva feliz. Educar é a palavra-chave na comunidade Software Livre.

Existem controvérsias sobre as possíveis interpretações da "Open Source Definition", que basicamente faz com que 1 ou 2 licenças existentes no universo caiam na excessão: é uma licença de "Open Source" porém não é uma licença de Software Livre. Essa 1 ou 2 licenças conhecidas possuem uma insignificante quantidade de softwares licenciados sob elas, então eu também acho insignificante ficar dando ênfase para as diferenças entre Software Livre e "Open Source". Algumas pessoas até hoje batem o pé e choram dizendo que não é a mesma coisa, que Software Livre é uma coisa, "Open Source" é outra. Eu acho uma perda de tempo e de esforço, já que isso só serve para dividir a comunidade. Dividir para conquistar, alguém já ouviu isso antes?

Essas pessoas que fomentam esse conflito, estejam elas do lado do Software Livre ou do lado do "Open Source", nada mais fazem do que alimentar uma guerra de ego sem fim. E este conflito é muito presente principalmente nos Estados Unidos, pelo que eu pude notar nas minhas inúmeras vezes pela terra do Tio Sam.

Tá, mas e o "código aberto?"

Bom, eu não sei exatamente quando, comecei a perceber que a comunidade brasileira está entrando na onda do "bater o pé que é diferente" ou "somos dois movimentos distintos", e algumas pessoas começaram a escrever coisas absurdas do tipo "Software Livre e de código aberto". Eu acho que isso é um grande erro da comunidade brasileira, e alguns dos motivos que me levam a acreditar nisso são:

  • Não existe ambiguidade no termo Software Livre em português.

  • Possuir o código aberto é um pré-requisito para que o Software seja Livre, mas possuir o código aberto (em bom português) não significa que o Software seja de fato Livre.

  • Código aberto é um termo sem definição. Não existe nenhum lugar que tenha publicado o que é que código aberto significa, e usar um termo sem definição somente contribui para que as pessoas que queiram deturpá-lo tenham a oportunidade de fazê-lo.

  • Somos todos "vegetarianos", não importa o motivo, e manter a comunidade unida é uma das chaves para o sucesso do nosso movimento.

  • Membros do conselho da OSI, durante visita ao Brasil há alguns anos, sugeriram que não seja criado "yet another term" para falar de Software Livre, por isso, se nem o povo que criou o termo "Open Source" quer que a gente traduza ele, porque a gente vai fazer isso por conta própria?

  • Evitar o efeito "dividir para conquistar".

  • Depois da merda espalhada, a própria comunidade vai ter que pagar o preço para limpar, e consertar um erro depois de consolidado é muito mais difícil do que evitar cometer o erro desde o começo.


  • E viva ao Software Livre! Que você pode achar socialmente justo, tecnologicamente sustentável, politicamente correto, super geek ou seja lá o que for. Somos todos "vegetarianos".

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