Meu projeto de parto

Semana passada, exatamente as 00:13 do dia 20.05.20, nasceu nossa filha Lucia. Eu tive experiências transformadoras na minha vida antes, mas essa experiência foi diferente. Eu sabia, enquanto tudo se desenrolava, que o que estava para acontecer mudaria minha vida pra sempre e de uma forma muito profunda, diferentemente das outras experiências que eu tive, que somente depois do ocorrido percebemos o quanto elas nos mudaram.


Eu compartilhei muito da minha jornada de fertilidade neste blog antes, mesmo assim, pensei que seria interessante contextualizar algumas coisas.


Durante grande parte da minha vida adulta eu acreditei não ser fértil. Quando eu tinha 22 anos anos, um médico no Brasil me disse que eu tinha uma condição chamada útero bicorno e eu tentei, sem sucesso, operar para corrigir este problema. O médico me disse que eu provavelmente teria dificuldades de engravidar com sucesso. Aos 22 anos, receber essa notícia foi devastador. Eu nem sabia o que eu queria da vida e vi assim, de um dia pro outro, minhas opções limitadas de uma forma tão fundamental. Infértil. O que a natureza estaria tentando me dizer?


Recebi com surpresa, aos 29 anos, a notícia que eu estava grávida, mesmo usando anticoncepcional. Foi uma decisão dificílima para mim, mas eu decidi que não estava pronta para ser mãe, e optei por um aborto. Mesmo sabendo que talvez eu estivesse jogando fora meu ticket premiado da loteria da maternidade. Desde a cirurgia aos 23 anos, eu sempre considerei maternidade algo que eu tinha que encarar com flexibilidade e considerar adoção e outros meios como forma de viver a experiência.


Caso você tenha interesse em aprender mais sobre a minha jornada de fertilidade desde o momento que eu e o Mark decidimos que queríamos tentar ter filhos, eu fiz dois posts sobre o assunto (em inglês):

  1. You can't always get what you want

  2. ...but if you try sometime you find you get what you need

Este post porém não é sobre gravidez, é sobre parto, decisões, preparação e realidade. Eu estou compartilhando vários detalhes do processo, então esteja ciente disso quando fores ler este post. Eu também vou compartilhar minha opinião sobre quais as coisas sobre as quais eu tive influência e quais eu tive sorte no processo.


Para me preparar para o parto, eu decidi primeiro de tudo, me informar sobre minhas opções. Eu li alguns livros. Fiquei surpresa em não encontrar nenhum deles em português:


Se você está considerando uma gravidez, e avaliando suas opções, eu recomendo que você se informe. Parto é algo muito grande para entrar na experiência às cegas. Quanto mais informação você tiver, melhor as chances de você tomar uma decisão que funcione para você e só para você, independente de qual escolha seja.


Meu marido e companheiro de parto Mark também fez o tema de casal. Ele leu "Expecting Better" da Emily Oster, e também "The Birthing Partner", da Penny Simkin. Ele também recomenda que parceiros de parto leiam esses livros (e recomenda o segundo livro da Emily Oster, Cribsheet).


Para tomar minhas decisões, eu levei em consideração como eu me sinto com relação ao meu corpo e o que eu queria para mim depois do parto. Minha conclusão? Eu queria me sentir "eu mesma denovo" o quanto antes. Apesar de querer ser mãe, eu nunca pensei que eu gostaria da experiência de estar grávida. Eu pensei que eu ia me sentir enorme, sem mobilidade e sem autonomia. Mas o que eu experimentei foi diferente no final das contas, e testemunhar meu corpo produzindo uma vida e mudando de forma tão rápida foi uma experiência muito legal.


Minha conclusão depois de ler, principalmente os três primeiros livros da lista, é que eu queria um parto vaginal. E se possível, sem epidural, o que faz com que seja um parto natural.


De acordo com pesquisas e sabedoria das parteiras, uma vez que você começa a ter "intervenções" no parto, a probabilidade de uma "cascata de intervenções" com resultados menos previsíveis aumentam, e com isso, a recuperação pós parto fica menos previsível. Eu queria voltar a me sentir eu relativamente rápido. Eu ainda quero, porém escrevo este post 8 dias depois do parto, então ainda estou no começo dessa jornada.


Dado que eu optei por um parto natural, existem algumas questões para as quais eu ainda tinha que encontrar repostas:


a) Do que eu tenho medo?

b) O que eu posso fazer antes do parto para trabalhar esses medos?

c) Quais as minhas opções para o parto?

d) O que fazer se as coisas não acontecerem de acordo com o plano?

Parte 1: Do que eu tenho medo?

Uma das coisas que eu pensei ser importante na preparação para minha experiência de parto era ser honesta comigo mesma sobre os meus medos. Então eu tentei encontrar esses medos em mim, e levá-los em consideração no meu preparo para o parto.


Eu tenho medo de machucar a mim ou ao meu bebê.


Parto natural significa menos intervenções, o que parece bom. Ao mesmo tempo, quando você deixa a natureza tomar seu curso você diminui a previsibilidade e isso pode ser desconfortável. Eu tinha medo que não querer intervenção médica pudesse se aproximar de negligência, e eu não queria ser negligente. Eu lembro de me pegar olhando o guarda-roupas da bebê com tudo dentro, lavado e organizado, e mostrar pro Mark onde tudo estava "caso eu não voltasse pra casa com eles". Quando esses pensamentos cruzaram minha mente, lágrimas encheram os meus olhos. Eu tinha esse medo de não voltar pra casa dessa experiência.


Esse medo não era só com relação a mim, mas também ao bebê. Obviamente, como qualquer mulher grávida, eu estava com medo de que qualquer decisão que eu tomasse (ou não tomasse explicitamente) pudessem resultar em algum dano a minha preciosa luzinha. Só o pensamento de algo acontecer com ela já era apavorante.

Eu tenho medo da intensidade da dor das contrações.

Tudo que vemos em filmes, e a maioria das histórias que ouvimos de outras mulheres são a respeito das dores das contrações. Eu tinha medo disso, naturalmente. Quem não tem medo de sentir dor? Eu também sabia que seria uma dor nova, que eu nunca havia sentido antes.

Eu tenho medo de ter um rasgo ou corte no períneo e as consequências de longo prazo.

Qualquer mulher que vai passar por um parto e te diga que não pensou sobre sua vagina esticar para a passagem da cabeça de um bebê (que tem na média 36cm de circunferência) está provavelmente mentindo. Não existe como não se pensar nisso, e também pensar que é uma tarefa impossível. As minhas funções corporais são super importantes pra mim, e eu tinha medo que o parto danificasse meu corpo de forma permanente. Diversas mulheres precisam da ajuda de cortes para dar a luz aos seus bebês. Eu não queria nem um rasgo, nem um corte, obrigada.

Eu tenho medo da falta de previsibilidade do processo.

Algumas mulheres tem um parto de 3 horas, outras tem mais de 30 horas de trabalho de parto. Para algumas o parto começa normalmente e termina em uma emergência médica. Como saber mais sobre o meu processo? Eu já mencionei que eu tinha medo de morrer, mas isso é um extremo. Tem um arco-íris de outras possibilidades que não há como prever, e estar num caminho onde você sabe o destino mas não sabe o que você vai encontrar no caminho, é assustados. Além disso, a maior parte das histórias de partos e nascimentos que escutamos não são de mulheres que tiveram experiências positivas. Talvez seja porque essas mulheres passam por experiências traumáticas e precisam contar suas histórias para processarem o que aconteceu com elas?  

Eu tenho medo que meu parto aconteça na presença de estranhos.

Mark sempre me apoiou e apoiaria não importa o que eu viesse a decidir com relação ao parto. Ele leu livros sobre gravidez e parto e se educou como ser útil para mim durante o trabalho de parto. Nós tínhamos um acordo sobre o pós-parto a respeito de que cuida do que (basicamente: Nanda cuida do bebê, Mark cuida da Nanda). Mais perto do parto, tínhamos também uma palavra-chave que eu usaria no hospital caso eu realmente precisasse de uma epidural (a palavra era caipirinha).

Como nós vivemos na Suíça, eu também me familiarizei com o sistema de saúde e como eu poderia ter certeza que eu conhecia as pessoas que iam me dar suporte durante meu parto. Aqui, existe a possibilidade de contratar uma parteira particular que trabalha em hospitais. Então ao invés de ir pro hospital e fazer o parto com quem esteja de plantão, você pode ligar pra sua parteira e determinar junto a ela se ela precisa ir na sua casa verificar o seu progresso ou te encontrar no hospital. Ela também fica durante todo o trabalho de parto ao teu lado, e o pessoal do plantão (estranhos) só seriam chamados em caso de complicações. Para o nascimento do bebê propriamente dito, uma segunda parteira é necessária na sala, e eu não saberia quem essa pessoa é até o momento do nascimento.

Eu encontrei a Eva Kaderli através da recomendação da parteira de uma amiga (obrigada Amy!). Ela foi absolutamente fantástica até aqui. Eva foi minha principal provedora de cuidados médicos a partir da semana 30 de gravidez e era uma voz calma e direta respondendo a minha paranóia interna de querer todos os dados do mundo. Ela tem experiência assistindo centenas de mulheres em seus partos, e quando eu mencionei o nome dela a alguns médicos, eles me diziam "ela é maravilhosa" e "ela é a melhor". Eles estavam certos. A Eva é maravilhosa.

Com a pandemia, porém, eu tinha esse medo que a Eva fosse chamada para ajudar na resposta a crise, e que o Mark também não pudesse estar comigo durante o trabalho de parto. A restrição sobre pais assistirem o parto dos filhos foi colocada na France, por exemplo. Para mim isso seria um contratempo enorme. Felizmente esse cenário não se tornou realidade.

Parte 2: O que eu posso fazer antes para trabalhar esses medos?

Pesquisar alternativas para o gerenciamento da dor.

Caso você decida não tomar uma epidural ou opioides, o que resta é basicamente massagens, respiração, meditação, imersão na água e (graças!) gás do riso. Eu li sobre todas essas alternativas, e decidi que, a menos que fosse necessário (ou que eu usasse uma palavra-chave que eu e o Mark combinamos antes do parto) eu não usaria opioides ou epidural.

Epidurais são ótimas, não me entenda mal. Para os bebês, não existe nenhum motivo para optar não fazer. Esse tipo de anestesia não influencia (nem para o bem, nem para o mal) o que acontece com o bebê pelo que eu pesquisei.

Para a mãe, porém, o cenário não é tão positivo. De um lado, epidurais são ótimas para prover alívio para a dor. Porém existem poréns. Elas nem sempre funcionam, tiram a mobilidade da parturiente e uma vez que você opta por uma epidural, não pode mais entrar na água. Além disso, epidurais estão conectadas com um número maior de outras intervenções, especialmente parto com ventosa ou forceps e esses, na maioria das vezes, acabam requerendo uma episiotomia, que estava na minha lista de coisas que eu não queria. Epidurais também estão relacionadas com um número elevado de cesarianas em função de sofrimento do feto, e período expulsivo do parto mais longos. Existem outras coisas que eu poderia listar aqui, mas eu resolvi só lembrar bem que uma epidural era um risco de uma cascata de intervenções e que esses não afetariam a bebê porém poderiam ter impacto negativo na minha recuperação e também outros problemas de longo prazo.

Opioides é um cenário completamente diferente. Eu tive que tomar opioide forte para alguns dos procedimentos que eu fiz para tratamento de fertilidade, e para mim era assustador. Além de ser extremamente viciantes, existe evidência que opioides não são efetivos para dores de parto. Também não há pesquisa avaliando as implicações de longo prazo do uso desses medicamentos no parto. E por último, eu tenho que admitir que eu tenho preconceito contra a indústria dos opioides e como eles transformaram essa família de medicamento em uma epidemia nos Estados Unidos.

Eu aprendi que muitas mulheres que tem seus partos sem epidurais tem seus partos em água e usam o gás do riso como formas de aliviar a dor. O gás do riso não é um remédio para a dor em si, mas ajuda a amenizar o pico das contrações. Supostamente a sensação é similar a tomar duas ou três taças de vinho, e certamente isso te faz relaxar. Eu tenho saudade de tomar duas ou três taças de vinho (não tenho saudades das manhãs seguintes a isso)! Eu decidi que eu usaria o gás do riso caso necessitasse de ajuda com gerenciamento das dores do parto.

Na minha pesquisa, a água pareceu ser o parto da vez entre as mulheres que optam por um parto natural. A água provê alívio para a dor, e também relaxamento que é tão necessário entre uma contração e outra. Eu estava convencida. Água estava nos meus planos de parto e não há muito o que argumentar contra o uso de água :-)

Eu tenho praticado yoga por quase dois anos, e eu sabia que meditação seria uma coisa boa para praticar durante o parto, e definitivamente ia usar isso em conjunto com exercícios de respiração para ajudar no parto. Eu nunca tinha ouvido falar de hypnobirthing, que é o uso da hipnose em parto, mas a idéia me pareceu boa, então decidi por isso também: eu ia continuar respirando, ia meditar e também ia checar o que era esse tal de hypnobirthing para o meu parto.

Uma coisa que eu repeti para mim mesma muitas vezes sobre gerenciamento de dor é: mulheres não morrem por cauda das dores do parto, morrem por complicações e intervenções. Eu sabia que a dor não ia me matar.

Eu posso ler histórias de partos e me familiarizar com possíveis cenários.

Como parte da preparação para o parto, eu li muitas histórias de partos. Para essas histórias, o livro da Ina May foi um recurso fantástico, já que começa contando diversas histórias com cenários diferentes e também diferentes desfechos. Além disso, eu procurei por histórias de partos na internet e achei diversas em websites sobre hypnobirthing e parto natural. Eu li histórias felizes, histórias com desfechos adversos. Para mim ter informação foi crucial e eu me senti mais empoderada e em controle o quento mais familiar com o processo eu me sentia.

Eu posso assistir vídeos de partos naturais e avaliar se é uma opção para mim.


Se você quer criar uma imagem mental sobre como um parto acontece na vida real, não olhe TV ou filmes. Na maioria das vezes parto nesses contextos são tratados como uma emergência médica e ninguém parece estar se divertindo. Eu queria realmente criar uma imagem mental sobre parto na minha cabeça, então eu fui atrás de vídeos de partos naturais no bom e velho Youtube e me surpreendi positivamente com o que eu encontrei.


Além disso, eu recebi a recomendação de olhar esse website que tem diversos vídeos de parto: https://www.monetnicole.com/birth-videos

Eu posso me preparar lendo livros, fazendo aulas e exercício físico.

A lista de leituras está no começo do post. Eu recomendo todos os livros, exceto o Hypnobirthing da Marie Mongan. Eu não gostei do estilo da escrita e não achei muito útil como consequência. A parte mais útil do livro, para mim, foi a história dela observando sua gata dar a luz. É útil observar como animais lidam com o parto, porque como eu disse para uma amiga, parto é muito mais parecido com "Animal Planet" do que com uma comédia romântica.

Eu pratiquei yoga prenatal durante toda a gravidez (a partir da 12a semana), umas duas vezes por semana. Eu primeiro assistia as aulas num studio de Yoga em Zurique chamado Birthlight (recomendo muito!) e depois da pandemia, eu continuei com uma instrutora de yoga privada, Gisela Collazo (que também é nossa doula no pós-parto) e além disso fazia aulas online através do website MyYogaWorks (obrigada Dana pela recomendação!).

Eu também diz um curso de Hypnobirthing, mas não me convenci muito. A instrutora era muito legal, mas eu não gostei do método em si, porque eu achei que ra muito sobre sentimentos, emoções e natureza e muito menos sobre ferramentas que eu poderia usar na hora do trabalho de parto. Se tu tens curiosidade de aprender mais sobre Hypnobirthing, existem cursos em tudo que é lugar. Eu recomendo a leitura do livro da Katherine Graves. Eu fiz o curso com a Awital do My Gentle Born em Wettingen. Uma ferramenta importante que eu aprendi no curso e usei durante a gravidez foram as afirmações para o parto.

Uma ferramenta importante que eu utilizei do curso de hypnobirthing foram as afirmações para o parto. Eu achei as afirmações super úteis para me lembrar de ter confiança no processo e eu escutei essas afirmações frequentemente durante a gravidez.

Minha gravidez aconteceu durante a maior pandemia do nosso tempo, e em função disso todos os cursos presenciais, incluindo a preparação para o parto em Zurique, foram cancelados. Esses cursos são geralmente nas maternidades e incluem um tour da maternidade para que as mães se familiarizem com o ambiente. Meu curso de Hypnobirthing também foi interrompido e eu tive que fazer a sessão de "liberação de medos" via Zoom, o que não foi ideal e eu não recomendaria para alguém que não está acostumado a praticar meditação. Essa sessão pra mim foi ótima apesar das limitações.

Eu recorri aos meus amigos para recomendações de aulas online para preparação para o parto, e acabei fazendo diversos cursos com a Jo Everatt, uma parteira britânica que vive em Bruxelas e se dedica a cuidar de mamães e bebês antes e depois do parto. Ela foi rápida ao adaptar o conteúdo dos cursos para aulas online em função da pandemia. Eu e o Mark fizemos cursos de amamentação, "sobrevivendo a sala de parto", "habilidades com o bebê", e fizemos também uma atualização do nosso curso de ressuscitação cardiopulmonar para bebês. Se você tem interesse am fazer cursos desse tipo online, e inglês não é uma barreira, considere fazer com a Jo (obrigada Ilana pela recomendação!).

Snowshoeing in Spitzmeilen

Eu também fiz um esforço para me manter ativa. Eu corri um pouco no começo da gravidez mas depois de 16 semanas a barriga começou a incomodar com o balanço da corrida (eu também poderia escrever um post inteiro no blog sobre a seleção terrível de roupas esportivas para grávidas, e eu não conseguia me sentir confortável em nenhuma roupa para correr direito). Eu daí comecei a caminhar, e até fui fazer uma caminhada na neve (ver foto) e em geral me mantive bem móvel, claro que com as restrições da pandemia tudo ficou mais limitado). Eu use a bola de pilates como cadeira e passava pelo menos uma hora por dia trabalhando usando a bola, e fazendo movimentos que ajudam a preparação da região da pelvis. No último mês eu desci de elevador ao térreo do nosso prédio, e subia pelas escadas pelo menos umas duas vezes por semana. Nós moramos no quinto andar, e aqui o térreo é o andar zero, portanto um bom exercício.


Por último e talvez não muito falado a respeito, eu mencionei que tinha medo de que eu tivesse rasgos ou precisasse de algum corte na minha vagina. Eu pesquisei o que eu poderia fazer a respeito disso em termos de preparação. Encontrei dois aparelhos no mercado que ajudam a preparar o períneo para o parto, e também servem como uma forma de criar uma familiaridade com a sensação de pressão que você vai sentir quando o bebê estiver passando pelo cervix. Os aparelhos são o EPI-no e o Aniball. Eu escolhi o Aniball em função de algumas revisões que diziam que era mais fácil de colocar na vagina e ele ficava no lugar certo, enquanto o EPI-no as vezes "escapava" o que faz com que o processo todo seja mais difícil.


Comecei a fazer exercícios com o Aniball todos os dias começando na semana 36. Lá pela semana 40, eu já conseguia passar o balão pela minha vagina com 28.5cm de circunferência usando somente respiração. Fantástico eu sei. Eles tem um vídeo sobre como funcionam os exercícios aqui. O Aniball me deu a confiança que eu meu corpo poderia dar a luz a um bebê vaginalmente. O começo foi muito frustrante e eu até chorei um pouco em silêncio tentando usar o aparelho e sentindo que eu não tinha controle que eu deveria ter sobre o meu próprio corpo. Mas eu persisti, pedi pro Mark me deixar sozinha para fazer os exercícios e quando chegou mais perto do parto e eu me sentia mais confiante, ele voltou a me acompanhar para me apoiar nos exercícios, que ficavam cada vez mais intensos.


Todos os dias depois do exercício com o Aniball, o Mark fazia uma massagem perineal em mim usando um óleo especial da Weleda. Para mim as massagens eram a parte relaxante da preparação, depois do exercício com o balão.

Parte 3: Quais minhas opções para o parto em si?

Eu posso fazer o parto em casa.

Eu não gostava da idéia de fazer o parto em casa porque eu tinha medo de não ter o suporte médico necessário caso as coisas não acontecessem de acordo com o planejado. O hospital, para mim, era uma garantia e segurança. Eu tenho 38 anos e esse é meu primeiro filho. De acordo com a literatura, eu estou numa "gravidez geriátrica" e os riscos são maiores.

Com o agravamento da pandemia, a possibilidade de não precisar estar num hospital cheio de gente doente com covid-19 parecia mais e mais atraente. Além disso existiam restrições de acesso aos hospitais e o Mark só poderia estar conosco no parto, mas não poderia ficar conosco na unidade de pós parto. Eu entrei em contato com uma parteira que faz partos em casa e conversei com ela. Duas semanas depois, a contatei novamente e desisti dessa opção. Eu tinha gostado muito da Eva e não queria mudar meus planos de uma forma tão fundamental.

Eu posso fazer o parto numa "casa de partos".

As "casas de parto" nunca apelaram muito pra mim. Se você está fazendo o parto em um lugar que não tem acesso a outros recursos médicos, então porque não em casa? Sei lá. Eu li sobre as casas de parto mais tradicionais de Zurique (destaque para Delphys), e li também relatos de mulheres que deram a luz a seus bebês nelas, mas a possibilidade nunca passou pela minha cabeça de forma séria.

Eu posso fazer o parto num hospital.

Eu pesquisei estatísticas sobre cesáreas nos diversos hospitais de Zurique. Alguns tem a porcentagem de cesárias de 58% enquanto outros são perto de 20%. Além das estatísticas de cesárea, outra coisa que para mim era importante era a existência de uma unidade de tratamento intensivo neonatal. Esse último requisito encurtou minha lista de possibilidades para dois hospitais: Triemli Hospital ou University Hospital.

Eu acabei escolhendo Triemli porque lá eles tem a possibilidade de que você contrate uma parteira privada, e porque o hospital fica a somente 1.5Km da nossa casa. Olhando pra trás na decisão, também gostei do fato de que a maternidade fica num prédio separado do hospital e portanto, dado que estamos em tempo de pandemia, estar longe de pessoas possivelmente doentes com covid-19 também era desejável. A possibilidade de caminhar até o hospital para minhas consultas a partir da 30a semana de gravidez também foi ótima porque nos permitiu evitar transporte público durante o pior da pandemia. Eu caminhei de casa para o hospital e do hospital para casa para todas as minhas consulta até a semana 38, o que também ajudava a me manter ativa.

Quando Mark e eu fomos conhecer a Eva na 16a semana de gravidez, ela nos mostrou um pouco da maternidade, e o local pareceu bem ok. Nada de luxuoso, mas eu não precisava de luxo. Eles tinham bolas de pilates, cordas, chuveiros e banheiras. Era tudo o que eu precisava.

Na Suíça, depois de um parto vaginal sem complicações a mãe e o bebê recebem alta do hospital depois de 3 dias. Por causa da pandemia, os hospitais não estavam permitindo que os parceiros das parturientes acessarem a ala de pós parto mais do que 1 vez por dia, por 1 hora.

Meu objetivo não era somente fazer o parto no hospital. Era fazer o parto no hospital e eu queria que tudo acontecesse sem intervenções médicas para que eu pudesse voltar pra casa não em três dias, mas em algumas horas. Essa possibilidade existe e eu carinhosamente chamei de parto "drive through". Durante a pandemia eles estavam encorajando essa opção, que permitiria a mãe e o bebê irem pra casa depois de 6 horas caso o parto acontecesse antes do meio dia, ou depois de uma noite se o bebê nascesse durante a noite ou madrugada, voltando pra casa a tarde.

Parte 4: E se as coisas não acontecessem conforme o planejado?

Nem sempre as coisas acontecem como planejamos. Pare esse item eu resolvi que o melhor que eu poderia fazer era me informar sobre os possíveis diferentes desfechos. Ler as histórias de partos me ajudou muito nisso. Além disso eu também tinha que ter um pouco de fé no universo.

Uma das coisas que eu aprendi estando grávida é que as vezes o sentimento é que você está num parque de diversões e um amigo acaba te convencendo a ir na montanha-russa e mesmo sabendo que você odeia montanhas-russas, você vai. Quando o cinto de segurança trava, você se sente apavorado, mas quando o carro está na primeira subida, você acaba aceitando que não tem mais controle a partir dali. A bebê estava dentro de mim, estava saudável e estava pronta pra nascer. Caso as coisas não acontecessem como planejado, eu confiaria na minha equipe médica.

Meu plano de parto

Diversos livros que falam sobre parto falam da importância de se ter um plano pro parto. Esse plano é uma lista das suas preferências que você pode compartilhar com seu médico ou parteira para que, dentro do possível, eles sigam suas preferências quando chegar o grande dia. É também importante porque dá a chance de pensar e discutir cada um desses ítens com o seu parceiro, e dessa forma ele/a pode servir como representante seu no dia do parto. Com a intensidade do trabalho parto, talvez você não esteja no melhor estado mental para tomar decisões importantes. Sua cabeça estará num universo particular, em um espaço mental diferente.

Eu não escrevi um plano de parto super elaborado, mas eu tinha uma lista de preferências que eu discuti com o Mark e com a Eva, como parte da minha preparação par ao parto. Aqui está minha lista:

  • Eu vou praticar Hypnobirthing/meditação/exercícios de respiração durante o parto.
  • Parto natural.
  • Se a bolsa romper e o parto não começar naturalmente, esperar 12 horas e evitar exames vaginais nesse período.
  • Eu vou beber água, suco e comer coisas leves durante o trabalho de parto (abacaxi, laranja, manga).
  • Eu vou ficar em casa o máximo possível.
  • Ambiente calmo e quieto, sem "coaching" ativo.
  • Sem luz muito clara.
  • Eu gostaria de me movimentar durante o trabalho de parto.
  • Encorajamento é bem-vindo.
  • Gás do riso para gerenciamento da dor se necessário.
  • Não induzir a não ser que o bebê esteja em sofrimento ou se eu fechar 42 semanas de gravidez.
  • No caso de indução, eu quero anestesia -- o mínimo necessário para que eu possa continuar me movendo o máximo possível.
  • Não autorizo episiotomia de rotina.
  • Parto na água se possível e disponível.
  • Esperar o cordão umbilical parar de pulsar, para depois cortá-lo. O Mark não quer cortar o cordão, mas pergunte denovo no dia caso ele tenha mudado de idéia.
  • Contato de pele assim que o bebê nascer.
  • Gostaríamos do máximo de tempo em família depois do parto.
  • Gostaríamos que mamãe e bebê voltassem pra casa o mais rápido possível depois do parto.

O meu parto

Com a chegada do "dia do parto", além das pessoas começarem a perguntar o tempo todo se o bebê já chegou, eu comecei também a me perguntar se cada sensação nova que eu estava sentindo seria o começo do meu trabalho de parto. A maioria das vezes não era. Uma dica que eu peguei de um livro (se não me engano da Oster) foi para dizer para as pessoas que a data estimada do parto era "final de maio" ao invés de dizer uma data precisa. Eu também falei pra diversas pessoas que a data estimada era dia 2 de junho, quando na verdade neste dia eu estaria completando 42 semanas de gestação.


Diferentemente do que se vê nos filmes, o trabalho de parto raramente começa de uma hora pra outra. O corpo vai aos poucos se preparando para o parto, e te dá dicas de que isso está acontecendo. Como essa era minha primeira gravidez, eu não tinha idéia do que seriam essas "dicas".


Lendo a respeito, eu já sabia que as minhas contrações de "pré-parto" começariam a ficar mais e mais regulares. Elas realmente começaram a ficar regulares no dia 17 de maio. Eu e o Mark marcamos o tempo e eu estava tendo contrações a cada 8 minutos mais ou menos.


Essas contrações de pré-parto se sente como a barriga estivesse enrijecendo muito, ficando muito muito dura, e isso cria um desconforto no abdomen, porque estica os outros músculos de uma forma estranha. Pode ser dolorido, mas a dor é do tipo quando você alonga um músculo um pouco demais. Dá pra sentir os músculos alongando até um ponto de desconforto para se adaptar ao que está acontecendo com o útero, mas essas contrações não são doloridas. Pelo menos pra mim não eram.


Durante o dia 18 de maio eu não senti mais nada de diferente, mas eu percebi que as contrações continuavam, e continuavam no mesmo ritmo. Lá pelas 3 da tarde, eu perdi o meu tampão do cérvix, ou pelo menos grande parte dele. O tampão é uma meleca da consistência de uma clara de ovo que sai da vagina como preparação para a dilatação. O volume é algo tipo uma colher de sopa bem cheia (pelo menos foi isso pra mim). Algumas vezes ele vem tingido com um pouco de sangue. O meu era totalmente transparente. Para muitas mulheres, perder o tampão significa o começo do trabalho de parto -- as contrações começam logo em seguida, mas não para todas. Para mim não começaram.


Minhas idas ao banheiro a partir daí eram sempre cheias de antecipação. Será que vou começar a sangrar? Será que isso é xixi ou minha bolsa estourou? Eu não sentia nada além das minhas contrações de pré-parto a cada 7 ou 8 minutos.


Eu fui pra cama dormir como sempre. Nestes últimos dias de gravidez, era sempre uma dúvida se eu teria ou não uma noite inteira de sono. Eu não tinha dormido bem de domingo pra segunda, então eu não esperava muito sucesso de segunda para terça.


Importante mencionar aqui que, a partir do sétimo mês de gestação, eu não tive muitas noites de sono que não fossem interrompidas com uma ou mais viagens até o banheiro para fazer xixi.


Terça 19 de maio, 3 horas da manhã. Eu vou no banheiro fazer xixi mas antes que eu chegue lá eu sinto bastante água escorrendo nas minhas pernas. Obviamente não era xixi. Minha bolsa tinha estourado. Eu fiquei tão empolgada que não consegui voltar pra cama parar dormir, mas o trabalho de parto não dava sinais de começar.


A partir do rompimento da minha bolsa, cada vez que eu ía no banheiro tinha "algo estranho" no papel quando eu me limpava. Parecia algo com a consistência parecida do tampão, mas era meio amarelado em cor.


Conversamos com a Eva por telefone cedinho pela manhã e ela nos assegurou que tudo o que estava acontecendo era completamente normal. Desligamos o telefone lá pelas 8 da manhã. Ela pediu que fôssemos ao hospital as 16 horas para fazer um eletrocardiograma e verificar como estavam as coisas com a baby -- ou nos encontraríamos mais cedo caso o trabalho de parto começasse.


Depois da ligação, eu fui no banheiro e percebi que aquela cor amarelada estava na verdade esverdeada, então eu mandei uma mensagem pra Eva perguntando sobre isso. Obviamente eu já tinha olhado na internet e tinha uma idéia do que tinha acontecido: a bebê tinha passado mecônio (feito cocô dentro da barriga). Isso pode ser um sinal de que a bebê está em sofrimento, e também existe um risco de Síndrome de aspiração de mecônio no parto, o que pode ser bem perigoso para o bebê.


Eva me falou que, já que eu tinha mecônio na água, eu deveria ir ao hospital as 10:30am para o eletrocardiograma. E lá me fui para verificar os batimentos da bebê. Tudo parecia normal. Ela sugeriu que eu voltasse pro hospital as 16 horas para tomar um coquetel que poderia ajudar o trabalho de parto a começar.


O coquetel era algo que eu tinha lido a respeito nos livros: óleo de mamona. Evidências científicas mostram que funciona em 50% das pessoas que tomam. O óleo de mamona causa enjôos fortes e isso pode fazer com que as contrações comecem naturalmente. As contrações não são mais intensas do que contrações normais (diferentemente das contrações sentidas por mulheres que fazem indução com oxitocina sintética, por exemplo). O óleo de mamona também é conhecido por ter um sabor tenebroso.


Eu voltei pra casa na esperança que o trabalho de parto iria começar porque as 4 da tarde quando eu voltasse pro hospital para o coquetel, o Mark não ia poder ficar comigo. Ele me largaria lá e só poderia voltar quando o trabalho de parto tivesse começado, o que aconteceria entre 4 e 6 horas depois de tomar o tal coquetel. O trabalho de parto não começou, então as 16 horas nós fechamos as malas e fomos pro hospital.


Se o trabalho de parto não começa em 24 horas a partir da hora que a bolsa rompe, daí é recomendado que se faça uma indução com medicamentos. Para resumir, mulheres que são induzidas são mais propensas a ter anestesia epidural porque as contrações induzidas são muito mais intensas do que as naturais, e uma vez que tu toma uma epidural há o risco daquela cascata de intervenções que eu mencionei antes.


Neste momento, a super controladora Fernanda já estava pensando "que merda, isso não é nada do que eu planejei. Eu só quero que a bebê nasça com segurança". Eu não estava muito feliz mas certamente convencida e comprometida a trazer a minha pequena humana a esse mundo com segurança e saúde, independente do custo que isso teria para mim em termos de resultado ou recuperação.


Quando eu cheguei no hospital as 16 horas, eu fui colocada numa sala de pré parto com uma cama, uma escrivaninha, um armário e uma cadeira. A Eva fez outro eletrocardiograma para verificar o bebê e também a intensidade e frequência das minhas contrações, ainda sem dor. Tudo estava bem. Ela preparou minha "batida". Um misto de creme de amêndoa, suco de damasco e óleo de mamona -- não faça isso em casa sem supervisão médica. O gosto era melhor do que eu esperava. Tomei o coquetel as 17 horas. Eva me deu tchau e falou que voltaria lá pelas 10 da noite, quando ela esperava que eu estivesse em trabalho de parto ativo.


Batida de óleo de mamona


Eu me senti um pouco triste de estar ali sozinha, tentei conversar com as pessoas através do WhatsApp, e fui assistir uma entrevista no Youtube. Em algum momento uma chave virou e eu comecei a me sentir mais e mais desconfortável, e o desconforto logo se transformou em uma dor muito intensa. Eu me senti bem triste de estar ali naquela sala fria sofrendo sozinha. Eu apertei o botão "por favor alguém me ajude" e uma parteira/enfermeira veio me ver. Eu disse pra ela que precisava do meu marido comigo. Eu sentia como se eu fosse enlouquecer ali sozinha com aquela dor. A parteira disse que ia verificar se era possível permitir a entrada do Mark (coronavirus). Eu mandei uma mensagem pro Mark no WhatsApp e disse que o trabalho de parto estava começando e ele devia se aprontar para vir pro hospital.


A parteira voltou e disse que o Mark podia vir, perguntou se eu queria que ela ligasse pra ele. Naquele ponto o Mark já tinha me mandado uma mensagem dizendo que estava a caminho. O hospital ligou pra Eva também e elas me avisaram que estavam preparando a sala de parto pra mim. O Mark chegou lá pelas 20 horas, me encontrou na salinha e rapidamente eles nos moveram pra sala de parto, onde uma banheira linda se materializou na minha frente como uma miragem que se torna realidade. Nos instalamos na sala de parto e minha primeira pergunta depois de deitar na cama foi se eu poderia ir pra dentro da água, e pra água eu fui. Eles colocaram um monitor sem fio em volta da minha cintura para ficar monitorando os batimentos da bebê e minhas contrações. As contrações eram extremamente intensas, mas era muito mais fácil lidar com elas dentro da água.


Eva chegou lá pelas 20:30. Para quem não sabe nada sobre parto, essas contrações que eu sentia era o que se chama de contrações de dilatação, ou primeira fase do parto. O objetivo dessas contrações é ajudar o teu corpo a dilatar até que seu corpo chegue a uma abertura de 10cm no cervix. Ok, de volta a minha história.


Antes da Eva chegar, eu já estava conversando com o Mark sobre "eu quero uma epidural". Eu não tinha usado nossa palavra-chave para indicar a seriedade do meu pedido. Quando a Eva chegou, eu fiz o mesmo discurso de "por favor sinta pena de mim" para pedir uma epidural. Eva me apoiou mas foi firme. Ela disse que aquele não era meu plano, mas que se eu quisesse uma epidural eu poderia receber uma, mas ela pediu que eu tentasse um pouco mais. Eu concordei, sob protestos, e pedi que me trouxessem o gás do riso. Ela mediu meu cervix e eu estava com 5-6cm de dilatação.


Eu pedi pro Mark tocar alguma música. Ela usou meu telefone e o auto falante de viagens que nós levamos pro hospital. Eu queria ouvir o álbum do Gilberto Gil e Caetano Veloso chamado “Dois amigos, um século de música”. Quando aquele álbum tocou até o final, eu pedi pra tocar Cara B do Jorge Drexler. Em algum momento uma música tocava que parecia atormentar minha cabeça com a batida e ritmo. Eu pedi pro Mark para passar para a próxima música, mas antes que ele o fizesse eu perguntei "isso tá tocando do meu telefone?" ele disse que sim, e eu no meu momento nerd controladora soltei um "ok google next song”. E diferentemente do que sempre acontece, o telefone aceitou meu comando.


O tubo mágico de gás do riso chegou lá pelas 21 horas. Até ali, o Mark estava me ajudando com palavras de incentivo, me oferecendo água, e um baldinho branco de plástico porque eu comecei a me sentir nauseada e tinha a impressão que eu iria vomitar. Mas não vomitei. Daquele ponto em diante o Mark também virou o operador do gás do riso então ele colocava a válvula na minha boca e apertada o botão para eu respirar o gás. Ele talvez tenha (ou não) experimentado o gás do riso num momento que a Eva saiu da sala de parto. Era importante que ele entendesse exatamente os efeitos do gás e o quão forte ele precisava apertar o botão!


Eu passei por mais algumas contrações beeeem intensas usando gás do riso, ou ao menos tentando descobrir como sincronizar o gás e a dor, e algo muito estranho começou a acontecer. Eu senti uma vontade incontrolável de empurrar a bebê pra fora. Neste momento na minha cabeça eu pensava "que merda, eu estou só 5 a 6cm dilatada, vou estragar tudo empurrando agora". Voltei pra conversa sobre a epidural com a Eva e o Mark, "por favor tenham pena de mim!" sem mencionar a palavra-chave denovo. Eu expliquei pra Eva que eu achava que não tava funcionando porque eu não estava totalmente dilatada e já estava com vontade de empurrar. Ela respondeu com um brilho na face: "sério? Posso checar teu cervix?".


Checar o cérvix significa que a parteira ou médico vai inserir dois dedos o mais profundo que eles possam alcançar dentro da tua vagina, e vai abrir os dedos para estimar o quão aberto o cervix está.


A Eva então me olha com uma cara de impressionada. Ela disse "Fernanda, tu estás totalmente dilatada. Isso é fantástico!" ou algo do estilo. Eram 21:30. As contrações até ali estavam muito muito intensas. Em bom velho português elas doíam PARA CARALHO. Dilatar de 5 ou 6cm para 10cm em 30 minutos foi o que fez com que as contrações fossem tão intensas. Eu já mencionei que as contrações eram MUITO intensas?


Então o instinto de empurrar não estava fora de lugar. Eu estava pronta! As contrações a partir daqui pareciam bem diferentes. Elas eram menos doloridas e mais focadas na parte mais baixa da pelvis. Mais ou menos como se você realmente precisasse fazer cocô querendo ou não. Essas contrações são conhecidas como "contrações de expulsão" ou "segunda fase do parto".


Já que eu mencionei cocô, vale mencionar que haverá cocô. Algumas mulheres tem diarréia pouco antes de entrar em trabalho de parto. Eu não tive. Eu fiz cocô na banheira. Algumas vezes, de acordo com o Mark. Eu não me lembro de nada, só tenho uma vaga lembrança da Eva "pescando" algo que poderia ser cocô da água em algum momento. Honestamente, eu estava literalmente "cagando e andando" pro cocô. Eu sabia que meu corpo podia expelir cocô, eu fiz isso a vida inteira. A sensação que eu tinha naquele momento, porém, e que me era aterrorizante, é que eu teria que cagar um abacaxi com casca. A sensação das contrações de expulsão era como se meus orifícios estivessem para explodir se eu colocasse qualquer pressão extra para empurrar a bebê.


Eva foi super paciente enquanto eu enganava as contrações com respiradas fundas cheias de gás do riso. Eu me sentia super relaxada entre as contrações e estava empurrando o mínimo possível para sobreviver a cada contração. Era minha forma de descansar depois de uma fase de dilatação tão intensa.


A Eva me disse que já conseguia sentir a cabeça da bebê na minha vagina e perguntou se eu queria sentir o quão perto ela estava de nascer. Eu fiz isso e podia sentir o progresso de cada contração. A sensação de colocar o dedo ali e sentir o cabelo da bebê era fantástica. Ela estava mais ou menos uns 4cm pra dentro, depois 3cm. Eu checava o progresso entre uma contração e outra e sabia que eu não estava progredindo muito. O Mark também colocou o dedo e sentiu a cabecinha da bebê quando eu ofereci para ele a oportunidade.


Já eram 23:30 e a Eva me disse algo do tipo "Fernanda, tu sabe que tu precisa empurrar com muito mais força do que isso. A bebê não vai sair a não ser que tu use toda a força que tu tens pra ajudá-la". Eu sabia. Ela me disse pra respirar bem fundo, segurar o ar dentro de mim e empurrar com toda a força do meu corpo e a bebê sairia. Estávamos perto da meia noite, e seria 20.05.20, o dia dela, e algo na minha cabeça clicou e eu pensei "ok, tá na hora".


Eu comecei a empurrar com toda a força que eu ainda tinha, e 4 contrações depois, a Lucia tinha nascido as 00:13 do dia 20.05.20. Na primeira contração a cabeça dela coroou mas entrou de volta pra dentro. Na segunda, a cabeça dela chegou sair até a metade, e a Eva pediu para eu parar de empurrar e esperar a próxima contração. Na terceira contração a cabeça dela tinha saído toda, e finalmente na quarta, o corpo inteiro saiu. O Mark assistiu tudo e achou fascinante o que o meu corpo estava fazendo (e também de alguma forma assustador).


A sensação da cabeça do bebê passando pelo períneo é um alargamento bem intenso e a sensação me pareceu muito similar com o que eu sentia praticando com o Aniball. Eu não descreveria como muito dolorida.


A sensação de empurrar para o corpo do bebê sair é de alívio. Eu me senti fisicamente esvaziada. A Eve perguntou se eu queria pegar o bebê eu mesma, e eu respondi "não, só entrega ela pra mim por favor". Ela fez isso, e eu peguei a Lucia nos meus braços. Quando eu trouxe ela mais perto do meu peito, senti uma dor como um puxão dentro do meu útero. Eva anunciou: "não levanta ela pro teu peito porque teu cordão umbilical é bem curto, vai puxar a placenta". Eu deixei ela na minha barriga, e o Mark tirou a foto que é a minha favorita da experiência. Como você pode ver nesta foto, a água está transparente. Não é rosa, nem vermelha. O Mark disse que ele viu um pequeno jato de sangue na água quando a Lucia estava saindo, mas era muito pouco sangue. Eu sempre imaginei partos como uma cena de um filme de terror: sangue para todos os lados. 


A cara mais feliz do mundo com a Lucia agora do lado de fora



Depois dessa foto uma filha de toalhas e lençóis foi coloca em cima de nós duas, ainda dentro da banheira. Uns minutos depois da Eva disse que o cordão tinha parado de pulsar, e perguntou pro Mark se ele queria cortar o cordão umbilical. Ele não quis, então a Eva cortou.


Ela me disse para passar a Lucia para o Mark para que ela pudesse me ajudar a sair da banheira. Fizemos isso e eu fui pra cama para o nascimento da placenta, também conhecido como o terceiro estágio do parto. Quando eu deitei na cama, meu corpo inteiro começou a tremer. Não como treme quando saímos da piscina e tem um ventinho. Tremendo como num terremoto, um misto de frio e exaustão. Milhares de lençóis quentes depois, eu parei de tremer, e tinha mais um trabalho pra fazer: a placenta tinha que sair.


Eu já não sentia dor de contrações, ou sequer contrações. Eu estava deitada de barriga pra cima, e a Eva me pediu pra empurrar. Dois empurrões depois, a placenta tinha saído. Tinha um pouco mais de sangue nessa parte do parto, e como eu estava na cama com lençóis brancos por tudo ficou bem óbvio, mas nada assustador.


Depois da placenta, a Eva examinou minha vagina e me deu a melhor notícia do pós-parto: nenhum dano ao meu períneo (sem rasgos, portanto sem pontos!).


Minutos depois, Lucia Josephine Drayton, a bebê mais linda do mundo, estava derretendo meu coração e pegando o meu peito. A cabeça dela tinha 36cm de circunferência, ela pesava 3.520kg e tinha 48cm. O que eu tinha acabado de fazer foi a experiência mais poderosa, mais crua que eu já tive na vida. Eu tenho certeza que é assim que super-heróis se sentem depois de salvar o mundo. Eu era uma super-heroína.


Eva me levou pra tomar um banho enquanto Mark ficava com a Lucia. Lá pelas 3:30am, Mark voltou pra casa e eu fui transferida para a unidade de pós parto. Eu passei o resto da noite olhando para aquele bebê mágico que estava ao meu lado. Nunca antes da minha vida tive uma sensação de estar tão contente. Não me faltava absolutamente nada.


Na manhã seguinte eu acordei e fui no banheiro fazer xixi. Levei a Lucia comigo no berço com rodinhas dela. Eu estava com medo de fazer xixi porque muita gente diz que sente uma sensação de ardência muito forte pra fazer xixi depois do parto. Eu não senti nada daquilo, eu não tinha dor. Eu me sentia super bem. Comi café da manhã e almoço no hospital, e eles também me deram um sanduíche para a tarde. Comi tudo, eu tinha muita fome. Eu me sentia como se tivesse corrido uma maratona.


Tudo estava bem comigo e com a Lucia, então eu perguntei se eu poderia sair do hospital no mesmo dia. O hospital organizou para que a Lucia fosse examinada por um pediatra, e nos liberariam no mesmo dia desde que nós tivéssemos um médico marcado para examinar a Lucia novamente dentro de uma semana. O Mark organizou o médico e as 17 horas, exatamente 17 horas depois da Lucia nascer, estávamos em casa, nós três.



A cara mais feliz do mundo com a Lucia agora do lado de fora

Talvez você esteja se perguntando: como eu me sinto com relação a experiência? Eu me sinto muito positiva. O Mark também se sente super positivo. O investimento que fizemos na preparação deu bom retorno. O Mark também se preparou super bem e eu não poderia ter pedido um parceiro melhor para dividir essa experiência comigo. Ele foi fantástico no apoio, e continua cuidando super bem de mim no pós parto. Ele cuida de mim, para que eu possa cuidar da Lucia.


Nós dois concordamos que o quanto mais nos informamos sobre o processo, menos assustador e mais possível tudo se pareceu.


Claro que há coisas que eu tive sorte. Primeiro, meu trabalho de parto durou 4.5 horas. Para um primeiro filho, isso é considerado MUITO rápido. Além de tentar relaxar o máximo possível, não há muito o que fazer para controlar o tempo de duração de um parto. Cada mulher é diferente. Eu também não sei o quanto os exercícios ajudaram na questão do períneo, que ficou intacto. Eu vou considerar que foi em parte sorte, e em parte preparação.


Eu tenho certeza que todos os cursos, preparação e persistência mesmo quando as coisas pareciam difíceis (como os exercícios com o Aniball, e o cancelamento dos cursos por causa da pandemia) fizeram a diferença.


Eu recomendo essa experiência para qualquer pessoa? Nem pensar. Eu recomendo, porém, que você se informe o máximo possível, e planeje uma experiência que sirva para você baseado nos seus objetivos, medos, limites e prioridades.


Se eu faria tudo denovo? No momento ainda não sabemos se queremos um segundo filho, mas se quisermos, eu vou me preparar denovo para um parto natural, sim.


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